Usar quase sempre a mesma bola ou variar? Fomos conhecer a opinião de vários protagonistas portugueses

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Bolas mais duras, mais moles, de várias ou menos marcas. No que toca ao “objeto” que é protagonista de todos e quaisquer encontros de ténis, as opiniões dividem-se. Lá por fora, ainda durante o ATP 500 de Roterdão, Alexander Zverev e Dominic Thiem elogiaram as bolas utilizadas (marca Tecnifibre) no torneio holandês e defenderam uma utilização mais regular de um estilo/marca de bola, mas nem todos os jogadores estão de acordo.

Ao mesmo tempo que o jovem prodígio alemão fazia um elogio às bolas Tecnifibre e criticava as HEAD que são utilizadas noutras provas e diz serem “como pedras” devido ao excesso de peso que reúnem, Steve Johnson dizia, em Memphis, que as RS Black Edition — as bolas produzidas pelo já retirado Robin Soderling — são “as piores bolas com que já joguei”. A troca frequente de bolas de torneio para torneio é propícia a lesões, dizem uns, mas Marin Cilic e Tomas Berdych discordam. Nas palavras do checo, “isso é estar à procura de desculpas de criança”.

No seguimento das declarações de vários jogadores um pouco por todo o mundo, o Ténis Portugal foi à procura de respostas junto de alguns dos principais intervenientes portugueses. Gastão Elias, Frederico Gil, Rui Machado, Pedro Sousa, Frederico Silva e Frederico Marques deram as suas opiniões e há um ponto em que não há espaço para dúvidas: todos concordam que o número de bolas utilizadas no circuito ao longo do ano devia ser inferior ao atual.

Gastão Elias, 86.º ATP, diz que “jogar-se com as mesmas bolas faz todo o sentido. Em termos de preparação para os torneios seria melhor [que as bolas não mudassem com tanta frequência]e a adaptação seria mais fácil. Existirem bolas diferentes para tipos de piso diferentes faz sentido, mas mudarem as bolas em praticamente todos os torneios acho errado. Se falarmos do circuito Challenger, a realidade é muito pior: há torneios em que a qualidade das bolas é inadmissível e a ATP parece fazer pouco para mudar isso.” Para o número 2 nacional, uma redução de bolas imposta pela ATP “seria uma mudança que gostaria de ver acontecer no circuito.”

Observações à qualidade das bolas utilizadas nos torneios de categoria inferior fez também Frederico Gil, que lembrou que “nos torneios Future a troca de bolas só acontece aos 11 e aos 13 jogos, enquanto nos ATP é aos 7 e aos 9, portanto não só as bolas são piores do que nos torneios ATP como são trocadas muito mais vezes, o que faz com que o jogo seja mais lento e equilibrado. Quem é melhor jogador habitualmente consegue fazer mais efeitos com a bola, mas nestes eventos como elas muitas vezes não correspondem ao que se espera delas os jogadores mais fracos acabam por conseguir nivelar mais o nível.”

O tenista sintrense referiu ainda que por vezes “é difícil adaptarmo-nos de uma bola muito rija a uma mais “soft”, com menos pressão, de uma semana para a outra. A qualidade do pêlo das bolas também faz muita diferença no agarrar das cordas; umas ficam mais abertas e mais lentas, outras perdem o pêlo e por isso ficam mais rápidas, o que faz com que escorreguem mais nas cordas e tudo isto influencia imenso o jogo. Na minha opinião, deviam ser mais parecidas ao longo dos torneios, porque às vezes as diferenças notam-se muito e só a ATP é que consegue controlar isso no sentido de impôr limites em termos de pressão da bola e das características do pêlo.”

Nas palavras de Rui Machado, que em junho terminou a carreira de tenista e exerce agora funções de Diretor Técnico Nacional de ténis, estando responsável pelo Centro de Alto Rendimento, no Jamor, “tentar que se utilize um número mais reduzido de bolas no circuito, pelo menos no nível mais alto, era o ideal, sobretudo porque ajudaria a que os jogadores não tivessem de se adaptar a tantas condições tão diferentes. O clima e o piso já me parecem adaptações suficientes a fazer, mas como ponto mais importante refiro o facto das adaptações às bolas e ao piso serem normalmente aquelas que provocam mais lesões, porque normalmente os atletas lesionam-se ou por acumulação de esforço ou pelas novas condições a que o corpo não está habituado.”

Ao Ténis Portugal, o ex-número 1 nacional disse ainda que “em Portugal temos a preocupação de preparar os torneios com a bola com que os jogadores vão competir, porque a velocidade, o peso e as características das bolas são diferentes e quanto mais os jogadorwes se conseguirem adaptar, melhor.”

Tal como os compatriotas, Pedro Sousa também procura sempre treinar com a bola com que vai competir ou, se não for possível, com uma bola semelhante e fala num conjunto de “alguns cuidados a ter ao nível dos pulsos e dos cotovelos” nos momentos de adaptação a bolas diferentes, porque “por mais pequenas que sejam as mudanças há sempre algum ajuste a fazer que pode ser prejudicial.” Nas palavras do lisboeta, “há bolas que depois de algum uso tendem a ficar maiores e mais pesadas e isso torna o jogo muito mais lento e exigente fisicamente”, defendendo que “não só pelo jogo em si mas pelo bem estar físico dos atletas e para se pouparem algumas lesões” se deveria apostar numa troca de bolas menos frequente.

Frederico Silva, que tem alternado entre torneios Future e Challenger, revela que “por vezes não é fácil conseguir treinar com as bolas dos torneios, mas por norma vamos com alguns dias de antecedência para nos habituarmos quer às bolas, quer aos campos” e que “em torneios Challenger não tenho sentido grandes dificuldades em adaptar-me às bolas, mas em alguns Futures não são iguais e torna-se mais difícil.” O tenista caldense também concorda que “as características das bolas deveriam ser mais idênticas em todos os torneios. Sei que os torneios têm os seus patrocinadores e não é fácil terem as mesmas bolas, mas parece-me um aspeto em que a ATP e a ITF podiam tentar melhorar.”

Frederico Marques, o treinador que acompanha João Sousa pelo circuito fora, conta que “quando realizados a preparação dos torneios em Barcelona essa preparação já é feita com as bolas que vamos encontrar no torneio. Em Barcelona tenho um armário com todas as bolas do circuito, desde Head, Tecnifibre, Wilson, Dunlop, Srixon, entre outras. A bola é importante, mas não é tudo. O conjunto bola, superfície, humidade, calor e altitude é que pode ajudar ou prejudicar de alguma forma o atleta pelo seu estilo de jogo.”

O treinador do número 1 português afirma que “a meu ver são demasiados tipos de bolas, podia ser mais reduzido. Talvez uma votação entre jogadores para ver qual é a bola mais desejada pudesse ajudar? Não será fácil agradar a todos, mas se mais de metade dos jogadores estiver de acordo já é um avanço. Muitas vezes isso não acontece e poucos jogadores estão contentes com a bola durante a semana. Quem está contente é a organização do torneio porque tem um patrocinador. Além disso, existem torneios em que a bola tem carisma, como é o caso de Wimbledon… Os membros da ATP ouvem bastante os jogadores e está em constante evolução. Preocupa- se com os jogadores mas também com o espectáculo, por isso acredito que nos próximos anos poderemos ter novidades.”

Para Frederico Marques, há no entanto um aspeto mais “preocupante” e difícil de controlar: “Para um treinador é mais fácil controlar a situação das bolas do que chegar a um torneio e ter três tipos de velocidades de campo, como é o caso do Australian Open. Jogar no campo 7 ou no campo 13 são torneios totalmente diferentes em termos de velocidade. Visto que apenas somos informados do campo em que vamos competir horas antes do encontro… Isso sim, é mais preocupante.”

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Gaspar Ribeiro Lança

[email protected] | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tiebreak. Dar palavras a recordes, a histórias. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. Mais, sempre mais. Foi com o objectivo de fazer chegar este capítulo do desporto a mais adeptos que fundei o Ténis Portugal em 2010. Cinco anos depois, fui convidado a ser co-responsável pela redação dos conteúdos do website, newsletter e redes sociais do Millennium Estoril Open.