Roberto Bautista Agut em entrevista ao Ténis Portugal: “Chegar ao top-10 é um objetivo mas não uma obsessão”

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Tem 28 anos, ocupa o 14.º lugar no ranking mundial masculino (o melhor registo é o 13.º posto) e é um dos melhores tenistas espanhóis da atualidade. No currículo, tem 11 finais ATP disputadas, das quais venceu 5 — uma delas já este ano, na primeira semana da temporada. Das perdidas, destaca-se, do ponto de vista do ténis português, a de 2015, em foi derrotado por João Sousa em Valência; em termos internacionais e de carreira, a do Masters 1000 de Xangai,  a mais importante que já disputou e que o fez ver que se podia bater com os melhores de encontro para a encontro. Tem como objetivo chegar aos 10 primeiros, mas diz não ser uma obsessão, e fala no grande “foco e vontade de ajudar” que existe na atual equipa espanhola da Taça Davis.

Roberto Bautista Agut é o grande entrevistado do Ténis Portugal antes do arranque de mais uma edição do Australian Open.


ENTREVISTA

– 2016 foi a tua melhor temporada de sempre, em que conquistaste dois títulos e chegaste à melhor classificação de carreira. Ficaste surpreendido com o teu desempenho? Que análise fazes a esta época?

Foi um ano muito positivo principalmente a nível de jogo, em que tive um bom progresso e a partir daí os resultados chegaram. É mais ou menos como com as notas na escola.

– Foi, também, o ano em que representaste pela primeira vez a Espanha nos Jogos Olímpicos. Como é que foi viver essa experiência e o que é que mais te marcou na passagem pelo Rio de Janeiro?

Representar o meu país nuns Jogos Olímpicos era um sonho e pude realizá-lo depois de conseguir com muito empenho o meu lugar na equipa espanhola. Como sabem, a Espanha só tinha 4 lugares e há muitos bons tenistas espanhóis, de top mundial.

São momentos únicos, vives um torneio de ténis mas de outra maneira porque convives com jogadores de outros desportos, de outros países e cria-se uma atmosfera bonita na vila olímpica. Adorei e além disso consegui chegar aos quartos de final, tanto em singulares como em pares com o meu amigo David Ferrer.

– A Espanha está de regresso ao Grupo Mundial da Taça Davis após um ano de ausência. Vai ser um dos teus focos em 2017? Como vês as hipóteses de a equipa voltar a conquistar o título de campeã?

Até agora conseguimos criar novamente uma boa equipa, estamos todos focados e com vontade de ajudar. Vamos ver pouco a pouco como se desenrola a competição, começamos em casa com a Croácia, uma equipa muito forte e que quase a conquistou.

Depois disso, definiremos os objetivos, mas uma equipa como a Espanha deve aspirar a tudo, tanto pela tradição como pelos jogadores.

– Em Xangai, já no final do ano, alcançaste a melhor vitória da tua carreira ao derrotares o Novak Djokovic para chegares pela primeira vez à final de um Masters 1000. Consegues descrever aquela semana e como foi conseguir essa vitória em especial? Que emoções passam pela cabeça de um jogador nos momentos finais de um jogo como aquele?

Foi uma semana muito boa desde o principio nos treinos, onde me senti muito perto do meu melhor nível de jogo, jogando com muita intensidade e com muita confiança.

Claro que não pensei que pudesse chegar à final, mas essa confiança que sentia foi traduzindo-se e comecei a pensar que não era menos que os outros e que se queriam “pôr-me fora” dali tinham de jogar muito bem.

A nível emocional, o normal, o ténis é muito emocional e temos de se saber gerir as emoções. Treino o que devo fazer independentemente dos momentos que possam ocorrer, às vezes sai melhor, outras vezes pior.

– Já na final, defrontaste o Andy Murray, que terminou 2016 como número 1 e a jogar a um nível impressionante. O que é que consideras mais importante fazeres e/ou teres em conta na próxima vez que te vires numa situação semelhante a esta para que possas levar a melhor?

Continuar com o mesmo objetivo de melhorar, procurar minutos de um ritmo alto de jogo, procurar situações em que seja eu que tome as decisões. O que há a melhorar virá por aí, se tiver que vir, disso tenho a certeza.

– Depois de um início de época quase perfeito por parte do Djokovic, achavas possível o Murray chegar aos números e à forma em que terminou o ano? 

Foi tudo um processo, o ténis muda muito no dia a dia, quanto mais numa semana ou em meses.

Por um lado, o Novak entrou num processo muito mais normal do que aquele que as pessoas possam pensar, estávamos mal habituados, e por outro lado o Andy foi vendo que conseguia diminuir a distância. A final do Masters foi o culminar de uma grande temporada por parte de ambos, um que brilhou mais no início e o outro mais no final.

– Tu defrontaste-o precisamente no meio desse momento de forma impressionante. Como é entrar no campo para defrontar um adversário que tem tanto em jogo como ele tinha e que atravessava um momento de forma e de vitórias consecutivas como o dele? É diferente psicologicamente?

As dinâmicas de confiança vêm-se muito no ténis atual, para o bem e para o mal.

No final do ano, o Murray parecia ter poucos pontos fracos e se a isso adicionas confiança no que estava a fazer, o resultado foi o que todos já sabemos, número um e merecido. Já na gira asiática notava-se que poderia haver essa mudança no topo da hierarquia mundial.

– Quais são os teus objetivos para 2017? 

Continuar com a minha evolução. Trabalho todos os dias para polir detalhes, para conseguir chegar ao que é exigido pelo ténis de hoje, agressividade, determinação, mas sem perder a minha essência de jogador regular e incómodo.

– Chegar ao top 10 mundial é um deles? Se sim, o que é que achas que te falta para conseguires chegar lá?

É um objetivo, uma meta, mas nunca vou deixar que seja uma obsessão. Hoje sinto que estou mais perto do que há um ano, pelo nível, e deve ser esse o objetivo. A partir daí tudo pode acontecer, mas sem cair em ansiedades e obsessões.

– Como é que correu a pré-temporada? E que tipo de aspetos no teu jogo procuras melhorar mais nestes dias de preparação?

Foi muito equilibrada, continuámos com uma filosofia muito progressiva no dia a dia, demos sempre um pouco mais de importância à parte física mas não noto uma grande alteração entre a minha pré-temporada e as semanas durante o ano.

– De Espanha a Portugal é só um “saltinho”. Já consideraste jogar o Millennium Estoril Open?

Pelos meus compromissos com patrocinadores não pude jogar porque coincide com Munique. Falaram-me muito bem das alterações que se fizeram nos últimos anos e espero poder assistir a um Millenium Estoril Open nos próximos anos, guardo muito boas recordações dos torneios future em Portugal, tratavam-me todos muito bem.

– Falando agora um pouco do panorama do ténis espanhol, nos últimos tempos viveram os melhores anos da história com uma grande geração de jogadores a brilharem no circuito. Acreditas ser possível surgir uma outra geração como esta? Como é que vês o futuro do ténis espanhol?

É difícil uma geração tão boa como a que tivemos, mas às vezes tenho a sensação de que não ajudamos estas gerações, às quais me incluo, porque lhes exigimos coisas que só alguns fora de série como o Rafa e o David conseguiram.

Acho que aparecerá sangue novo, talvez do bom, mas o ténis em Espanha é competitivo e estão sempre a aparecer “fornadas” com qualidade. Tempo, paciência e confiança serão a chave para esses miúdos.

– Atualmente fala-se muito da #NextGen, dos jogadores novos com muita qualidade e já com bons resultados. Para ti, qual é o jogador com mais potencial dentro dos desta geração e porquê?

O Kyrgios e o Zverev parecem ser os que vão dominar o circuito dentro de alguns anos, mas o ténis muda muito e em pouco tempo, os méritos e a vontade de crescer e crescer marcarão o futuro.

– Como vês os regressos ao circuito do Rafael Nadal e do Roger Federer e quais achas que são as possibilidades de voltarem ao topo do ranking ou a ganhar um Grand Slam? 

São dois dos melhores da história, temos de respeitá-los e dar-lhes a sua cota de favoritismo. Nunca te podes esquecer deles. O circuito ganha em emoção com o seu regresso, substituí-los é muito difícil pelo seu carisma, pelos títulos, pelo nível que deram e estão aí com muita “fome” e vontade de voltar como no primeiro dia. São um exemplo para os restantes tenistas.

– Sabemos que tu e o “nosso” João Sousa são bons amigos. Como é que se “muda o chip” para se passar de uma situação relaxada fora do court para uma em que se está num palco do circuito a ter de defrontar um amigo? 

No final de contas, vais disputar um jogo e queres superar o teu adversário. Estamos preparados para isso, desde sempre que entramos em campo para ganhar a quem temos à frente. É um processo natural, não se tem de pensar muito mais do que isso. Entras, jogas, dás tudo o que tens e às vezes é suficiente e outras vezes não, mas sempre respeitando o adversário e aceitando que cada um luta pelos seus interesses.

– Pequeno quizz de respostas rápidas:

Torneio preferido: Madrid e Barcelona
Jogador mais divertido do circuito: Marc Lopez
Ídolo de infância: Raúl
Jogador com quem te dás melhor no circuito: David Ferrer
Ganhar um Grand Slam ou ser número um? Ganhar um Grand Slam para me tornar número um 😃😃😃
Pancada preferida: Direita

– Um hábito que tenhas antes, durante ou depois de um encontro:

Tenho todos os dias rotinas que procuro seguir e todas estão focadas na minha preparação física e mental para o dia a dia, o que todos fazemos, pôr o corpo e a mente preparados para a competição.

– Qual é o teu maior sonho?

Desportivamente, ver-me perto de jogar uma final de um Grand Slam mas sou bastante realista, não gosto de hipotecar os meus pensamentos sobre sonhos.

Quero continuar com o meu progresso, não quero parar e a partir daí tudo o que possa acontecer é típico do ténis e nesse aspeto, o destino vai sempre estar aberto para todos e para quem o mereça.

Nota: o contacto e as perguntas foram enviadas a Roberto Bautista Agut antes da conquista do torneio de Chennai, logo na primeira semana da temporada. Devido à preparação para o Australian Open a que deu início logo no dia seguinte, o jogador natural de Castellón de la Plana não teve possibilidade de responder às duas perguntas que o Ténis Portugal colocou sobre a vitória na Índia, mas em declarações à ATP revelou que celebrou “com um jantar com a minha noiva e o meu treinador, porque não é todos os dias que se ganha um torneio ATP.”

Ao website oficial do circuito, Bautista Agut disse ainda estar “muito contente por poder voltar a começar uma temporada desta forma”, depois de em 2016 ter saído de Auckland, na Nova Zelândia, com o título. “É uma grande recompensa que chega antes do que tinha imaginado. O importante é que já está tudo a andar e oxalá o ténis espanhol possa celebrar a conquista de tantos títulos como no ano passado e nos anteriores.”

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Gaspar Ribeiro Lança

[email protected] | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tiebreak. Dar palavras a recordes, a histórias. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. Mais, sempre mais. Foi com o objectivo de fazer chegar este capítulo do desporto a mais adeptos que fundei o Ténis Portugal em 2010. Cinco anos depois, fui convidado a ser co-responsável pela redação dos conteúdos do website, newsletter e redes sociais do Millennium Estoril Open.