Esplendor na Relva | “Redenção Epistolar”, por Miguel Seabra

0

Uma mensagem de Serena Williams para Patrick Mouratoglou mudou tudo – e colocou a norte-americana na rota do seu sétimo título em Wimbledon e 22º troféu do Grand Slam, colocando-se a par de Steffi Graf. Mas o seu treinador assegura que ela não é de empates.

Miguel Seabra, em Wimbledon

Foi uma boa final, bem melhor e mais equilibrada do que os parciais 7-5 e 6-3 podem deixar transparecer. É verdade que Serena Williams nunca pareceu demasiado acossada e que se sentia que Angelique Kerber estava a jogar perto do limite, mas houve excelentes trocas de bola e muita intensidade; quando a alemã chegou finalmente ao seu primeiro break point do encontro com o resultado em 3-3 no segundo set e pensou ter ali uma fresta de oportunidade, a norte-americana fechou-lhe a porta na cara com violência e, começando com dois ases consecutivos para esconjurar o perigo, descolou no marcador com um novo break logo a seguir e um jogo de serviço imaculado para finalizar. Depois comemorou caindo de costas na relva sagrada do Centre Court: foi a sua redenção, após a enorme frustração dos três Grand Slams anteriores perdidos com o título no horizonte – a eliminação nas meias-finais do US Open diante da ardilosa Roberta Vinci quando todos exigiam o Grand Slam de calendário, a derrota na final do Open da Austrália perante a combativa Angelique Kerber, o desaire na final de Roland Garros face à possante Garbiñe Muguruza.

O modo como Serena jogou o ponto decisivo foi elucidativo: perante uma exímia contra-atacante como Kerber, veio para a rede e ganhou o ponto com uma combinação de vóleis – um de esquerda para um canto, um de direita para fechar. Nesse momento, pensei em Patrick Mouratoglou, que entretanto se levantara para celebrar mais uma vitória da sua pupila. A associação entre os dois começou logo após aquela estranha derrota crepuscular na primeira ronda de Roland Garros em 2012 diante da francesa Virginie Razzano, que pareceu abençoada lá do alto pelo seu malogrado namorado. Desde essa tragédia no Court Philippe Chatrier, os números são elucidativos: sob a batuta do treinador franco-cipriota, ganhou 9 de 16 torneios do Grand Slam que jogou, com uma percentagem de encontros vitoriosos diante de opositoras do top 10 a roçar os 90%; antes, tinha ganho 13 de 47 eventos do Grand Slam jogados, com uma média de êxito face a opositoras entre as 10 primeiras de ‘somente’ 65,3%.

Vi in loco Serena Williams ganhar o seu primeiro título individual do Grand Slam em 1999, no US Open. E nesta quase década e meia ao serviço do Eurosport devo ter comentado centenas de encontros da norte-americana; como analista, sempre procurei ver para além do seu potencial também porque ela sempre me deu a ideia de que tinha uma margem tão grande para melhorar se tivesse (e aceitasse) um acompanhamento técnico mais adequado. E teve-o finalmente com Patrick Mouratoglou.

Ainda demorou algum tempo até que a sua biografia no WTA passasse a ostentar Patrick Mouratoglou como técnico oficial – oficialmente, eram os pais Richard e Oracene os treinadores (sendo Patrick Mouratoglou um mero ‘conselheiro’) até que a situação que estava à vista de todos ficou oficializada. Não sei se foi por entretanto também terem encetado um relacionamento amoroso ou não, mas o certo é que depois de o namoro ter terminado Serena Williams teve o enorme mérito de ter decido continuar a tê-lo como treinador. E Patrick Mouratoglou o enorme mérito de ter conseguido manter-se como seu treinador…

Depois de mais um retumbante êxito conjunto em Wimbledon, fui à procura do franco-cipriota no terraço dos jogadores do All England Club para ouvir a sua opinião. Nunca o entrevistei formalmente, embora tenhamos agendada uma conversa específica sobre um outro assunto que nos interessa mutuamente (o seu ‘publicista’ contou-lhe que também sou especialista em relógios e ele tem uma parceria com a marca De Grisogono), e acabou por ser uma entrevista informal com vários outros colegas que entretanto se foram juntando, mas o que ele disse de fundamental foi que Serena Williams não se vai ficar por aqui: “Ela não é mulher de ficar empatada com os 22 títulos de Steffi Graf nem com os 24 de Margaret Court, ela vai sempre querer passar à frente”.

Depois falou do longo processo de recuperação mental após a tremenda desilusão que foi a derrota nas meias-finais do US Open e o esfumar do sonho que era completar o Grand Slam de calendário (o sentimento de que provavelmente não terá outra hipótese foi esmagador); esse processo de cicatrização durou muito tempo e teve pelo meio as tais derrotas nas finais do Open da Austrália e de Roland Garros, sendo que até este ano ela muito raramente era surpreendida nas grandes cimeiras. Mas, dias depois da frustração de Paris, Patrick Mouratoglou recebeu uma longa mensagem da campeonsíssima. “Foi ao ler essa incrível mensagem que eu senti que ela tinha voltado a ser ela própria, que ela estava preparada para voltar a ganhar em Wimbledon”.

Com Patrick Mouratoglou, Serena Williams alargou os seus recursos técnico-tácticos. Tornou-se mais completa, aprendeu a explorar novas soluções de jogo. À motivação intrínseca provocada pela sua insaciabilidade de títulos juntou-se a motivação de jogar um ténis mais total, com aberturas de ângulo, com slices, com amorties, com vóleis. A vontade de, para além de ser uma competitiva máquina de ganhar, ser também uma melhor jogadora no sentido mais tenístico da palavra. Sim, ainda não adquiriu nem nunca terá a fluidez de outras campeãs com maior destreza na esquerda em slice ou no volear – mas também há muito que as ultrapassou curricularmente. E duas horas depois de bater Angelique Kerber ainda regressou ao Centre Court para arrecadar um 14º título do Grand Slam em pares senhoras ao lado da irmã Venus. Sem esquecer que já tem ouro olímpico em singulares e pares, mais os êxitos na Fed Cup e todos os restantes troféus. Apesar de já estar a caminho dos 35 anos, acredito que ainda tem em si mais títulos de singulares do Grand Slam que lhe permitirão isolar-se de Steffi Graf, primeiro, e de Margaret Court, depois.

Primus inter pares…

Leia também:

About Author

Miguel Seabra é jornalista de ténis desde 1990 e comentador de ténis no Eurosport desde 2003. Foi editor das publicações Ténis Europeu, Jornal do Ténis e ProTénis. Foi campeão nacional universitário de ténis, treinador e árbitro internacional. É igualmente jornalista especializado em relojoaria mecânica, sendo editor da revista Espiral do Tempo. Assegura que não há nada melhor do que ter as suas paixões por profissão.