Esplendor na Relva | “Uma Despedida Messiânica?”, por Miguel Seabra

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Roger Federer baqueou quando teve à vista a sua 11ª final de Wimbledon. Numa corrida contra o tempo, as suas probabilidades de atingir o derradeiro encontro em torneios do Grand Slam vão diminuindo – 13 anos depois, um olhar especial sobre o que representou a sua primeira vitória no All England Club.

Miguel Seabra, em Wimbledon

Após perder um encontro no qual poderia ter aproveitado bem melhor a parte final do quarto set, Roger Federer esperou pelo seu adversário para sairem ambos do Centre Court. Fiquei atento para ver se ele iria parar para dar autógrafos lá no canto, antes de entrar para o clubhouse. E enquanto Milos Raonic fazia isso mesmo, como seria de esperar, o suíço virou-se e disse adeus à multidão antes de desaparecer pelo corredor – recebendo uma tremenda ovação. Pareceu um gesto simbólico de despedida, mas mais tarde o campeoníssimo desfez quaisquer dúvidas relativamente ao seu regresso: ele quer mesmo voltar a jogar em Wimbledon.

Foi uma conferência de imprensa algo amargurada, mesmo que depois o tenha visto bem divertido à conversa com Bradley Cooper e Irina Shayk no terraço dos jogadores (acreditem ou não, andava por lá a rabiar um miúdo com uma camisola de Ronaldo do Real de Madrid!); se nos quartos-de-final diante de Maric Cilic ele venceu um encontro que se calhar deveria ter perdido, diante de Milos Raonic perdeu um embate no qual estava em boa posição de ganhar. Em 2015, Roger não concedeu qualquer jogo de serviço em que esteve com a vantagem de 40/0; na primeira meia-final da edição deste ano de Wimbledon e numa fase da competição em que nunca antes tinha perdido no All England Club, estava a ganhar por dois sets a um e o tie-break parecia iminente. Falhou então cinco serviços consecutivos e, no set-point fatal, escolheu tentar apanhar o opositor em contra-pé quando podia perfeitamente cruzar a sua direita em winner. Raonic não foi surpreendido. E no break-point que fez o quinto set inclinar-se para o canadiano aconteceu o mesmo: tentativa de contra-pé em vez da direita cruzada para o espaço aberto. Raonic voltou a não se deixar enganar. Com uma queda do helvético pelo meio e consequente deterioração física, a quinta partida rapidamente se tornou numa mera formalidade para o grandalhão a quem chamam ‘Missile Milos’ – e que voltou a provar ao longo de todo o encontro que atualmente ninguém serve tão bem à figura como ele. Ironicamente, um tipo de saque que o purista Federer sempre descurou.

Quando saí do Centre Court rumo à sala de imprensa lembrei-me do primeiro título de Roger Federer em 2003, que foi também o seu primeiro título do Grand Slam. E de como ele me tinha causado uma tal impressão que cheguei mesmo a apelidá-lo de Messias no título de um texto que escrevi então para o Expresso. Com Pete Sampras fora de cena e num período muito irregular no palmarés do Grand Slam com vencedores diversos mais inclinados para jogar no fundo do court, Roger Federer apareceu-me como o profeta de um estilo declaradamente atacante, um clássico moderno que apresentava um jogo com nuances vintage mas adaptado ao século XXI. Convenceu-me finalmente ao mais alto nível, depois de ter ‘desistido’ dele porque durante uns bons dois anos (entre 2001 e 2002) o indiquei sempre como outsider à conquista do título na previsão dos torneios do Grand Slam que fazia para o Correio da Manhã – sempre sem grande resultado.

O título desse texto do Expresso era ‘o Novo Messias do Ténis’. Treze anos depois, não vejo que a evangelização do seu estilo elegante e cristalino tenha tido os resultados práticos que eu esperava que tivesse nas gerações seguintes. Fomos todos seduzidos pela insustentável leveza do ténis de Roger Federer, tanto a imprensa especializada como milhões de fãs do ténis e do desporto em todo o mundo; a sua influência na modalidade foi enorme e tantos novos praticantes cresceram a idolatrá-lo e a tentar imitá-lo. Mas as suas hipóteses de chegar a um 18º título do Grand Slam vão naturalmente diminuindo com o avançar da idade e não vejo ninguém com um ténis parecido que possa arrecadar em breve um dos quatro troféus maiores da modalidade. Dos dois que receberam o cognome de Baby Fed, Richard Gasquet nunca passou de um bom peso-médio com laivos de brilhantismo que foram infelizmente insuficientes nas ocasiões mais importantes – e o mais parecido com um título do Grand Slam que Grigor Dimitrov teve foi Maria Sharapova (e umas meias-finais em Wimbledon).

Nestes treze anos desde a primeira vitória de Roger Federer em Wimbledon – e exceptuando os seus troféus maiores e aqueles que foram ganhos pelos outros três membros do chamado Big 4 – tivemos Andy Roddick a ganhar meses depois no US Open o seu primeiro e único título do Grand Slam, Gaston Gaudio a vencer de modo inverosímil em Roland Garros em 2004, Marat Safin a impor-se no Open da Austrália de 2005 depois do suíço ter jogado o match-point das meias-finais por baixo das pernas, Juan Martin del Potro a triunfar no US Open em 2009, Marin Cilic a repetir a façanha do seu falso irmão gémeo também no US Open em 2014 e Stanislas Wawrinka a vencer o Open da Austrália e Roland Garros nas duas épocas transactas. De todos, com a sua esquerda e fazendo figura de irmão mais novo, Stan foi aquele com o jogo mais parecido com o do seu compatriota e amigo… e, mesmo assim, num estilo bem mais panzer. Porque, como se sabe, tanto Rafael Nadal como Novak Djokovic e Andy Murray também são muito distintos de Roger Federer. Tal como Milos Raonic, Dominic Thiem, Nick Kyrgios, Alexander Zverev, Borna Coric, Andrei Rublev ou qualquer dos restantes jovens emergentes que estão aí na calha.

Se Roger Federer influenciou tantos jovens mas há tão poucos a saltar para a ribalta com um estilo directamente inspirado no seu, quer isso dizer que o suíço ganhou o que ganhou apesar do seu ténis estético? Claro que não. Ganhou muito precisamente pelo seu brilhantismo e fluidez. Mas não nos podemos esquecer que o próprio Roger Federer andou a penar durante um bom par de anos (os tais em que eu apostava nele nas previsões…) até resolver a charada que lhe permitiu aproveitar ao máximo todas as suas qualidades técnicas, físicas e mentais – a equação que tantos outros não conseguiram resolver ao mais alto nível. Incluindo os dois Baby Fed, Richard Gasquet e Grigor Dimitrov. Espero bem que Roger Federer continue a jogar e a encantar durante muito mais tempo, porque o seu ténis é o bem cultural mais precioso de que a modalidade dispõe hoje em dia – a inestimável ponte de contacto para um estiloso passado glorioso que vai de Pete Sampras na década de 90 a Sefan Edberg na década de 80. Com Roger Federer a conseguir ser bem melhor do que esses seus dois antecessores.

E porque me lembrei do tal artigo do Expresso, fui mesmo à procura dele… e encontrei-o. Aqui fica ele, para memória futura. O ténis precisa urgentemente de um novo messias, porque a modalidade é muito mais interessante quando há uma alargada diversidade de estilos no topo. Vai ser quase impossível encontrar um substituto com a sua plasticidade, mas o ténis precisa urgentemente da insustentável leveza de um jogador como Roger Federer.

(Expresso, Julho de 2003)

 Novo messias do ténis

Campeão de Wimbledon, Roger Federer é profeta de um estilo em vias de extinção

O talento é simultaneamente uma benção e um fardo – porque aos talentosos é-lhes sempre exigido mais pelo simples facto de poderem fazer melhor do que os outros.

No passado domingo, o jovem suíço Roger Federer logrou sacudir a pressão das expectativas ao conquistar o primeiro título do Grand Slam… mas o facto de ter materializado todo o seu brilhantismo nos sagrados courts do All England Club colocou a fasquia muito alta: a comparação com Pete Sampras (que também ganhou aos 21 anos o primeiro de sete títulos de Wimbledon) torna-se inevitável e a previsão de que o seu palmarés será digno dos maiores de sempre também reúne unanimidade.

A crítica e os aficionados já sabiam do que Federer era capaz de fazer, embora tivessem ficado siderados com a maneira sublime como atingiu a maioridade: rubricando exibições imaculadas no mais famoso evento tenístico do planeta. A maneira ideal de aferir o valor de alguém é através do respeito que suscita entre os seus pares e todos concordavam que o helvético era feito da melhor cepa – agora, têm também a prova de que para lá do jogador está um competidor capaz de actuar ao mais alto nível nos momentos mais solenes.

«Eles gostam de me ver jogar», confessa. «Também eu gosto de me ver na televisão. Há muito poucos a jogar como eu». Essa cândida admissão é feita sem qualquer fanfarronice. Federer parece ser o único herdeiro de um ténis clássico e elegante tornado em desuso pela evolução tecnológica: maiores, mais leves e mais rígidas, as raquetas foram permitindo aos jogadores baterem cada vez mais forte no fundo do court e responder aos saques adversos com maior eficácia, originando o declínio daqueles que baseiam o seu estilo no binómio serviço-vólei.

John McEnroe tem fomentado um lobby destinado a promover a limitação oficial do tamanho das raquetas para travar a escalada da potência e preservar o jogo de rede – aparentemente em extinção no topo após as reformas de Patrick Rafter, Richard Krajicek e Pete Sampras. Federer fazia figura de ‘ave rara’, mas passou a ser encarado como um messias depois de se ter ajoelhado vitoriosamente na ‘Catedral do Ténis’: o seu sucesso instigará muitos jovens a imitar o seu estilo…

MAIORIDADE AOS 21 ANOS

As últimas décadas têm provado que os jogadores de fundo do court atingem a maturidade mais cedo do que os atacantes. Bjorn Borg, Mats Wilander, Andre Agassi e Lleyton Hewitt já discutiam cimeiras profissionais aos 18 anos; nessa idade, Roger Federer contentava-se em ganhar a prova de juniores de Wimbledon e precisou de mais tempo para amadurecer.

Tal como um complicado mecanismo de alta relojoaria suíça, as partes do seu jogo foram manufacturadas e trabalhadas com o fito de funcionarem entre si de modo perfeito. Actualmente, Federer até se apresenta como um jogador ainda mais fluído e completo do que Sampras, o recordista de títulos do Grand Slam (14) que ele derrotou na primeira vez que jogou no court central de Wimbledon (oitavos-de-final em 2001) e que nunca se sentiu bem na terra batida ou teve uma execução técnica de esquerda à altura do seu arsenal.

Roger é capaz de actuar em todo o tipo de pisos, de produzir todo o tipo de efeitos de bola, de criar todo o tipo de ângulos, de executar todo o tipo de pancadas – e ainda inventa quando é necessário. Faz tudo depressa e bem; a prática regular do futebol (hesitou entre ambas as modalidades até aos 13 anos) revelou-se fundamental para o jogo de pés e a extrema rapidez que ostenta no court.

O temperamento também levou a amadurecer. Federer sempre foi calmo e sorridente, mas a sua demanda perfeccionista levava a demonstrações de frustração quando as coisas não lhe saíam bem: partia raquetas e falava consigo próprio em tons menos agradáveis. Em 2001, comprometeu-se a mudar de atitude; desde então, foi acumulando títulos em todas as superfícies (este ano já vai em cinco troféus conseguidos em alcatifa, pisos duros, terra batida e relva!).

A simplicidade de Roger torna-o igualmente adorado por todos – a começar pelo país natal, ao serviço do qual se tem demonstrado invencível na Taça Davis. Apesar do ar mediterrânico e de o seu nome se pronunciar à maneira inglesa (a mãe é sul-africana), o rapaz de Basileia é encarado como um produto tão suíço como o Rolex Daytona que ostenta no pulso.

Federer é uma espécie de rebelde à maneira helvética – uma rebeldia ‘bon chic, bon genre’. Usa cabelo comprido e deixa a barba por fazer, mas o rabo de cavalo é meticulosamente arranjado e surge sempre impecavelmente equipado com o vestuário mais irreverente da Nike e o melhor modelo de raquete da Wilson (curiosamente, os mesmos ‘fornecedores’ de Sampras). Fomenta também uma célula muito coesa: a namorada Miroslava Vavrinec tem conhecimento das exigências da modalidade por já ter sido tenista profissional e é a relações públicas; o pai é o responsável pelos interesses comerciais; o treinador sueco Peter Lundgren assume igualmente o papel de irmão mais velho.

Todos eles sabem que têm entre mãos um ‘puro sangue’… e que a corrida (aos troféus e aos dólares) só agora começou.

Miguel Seabra

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About Author

Miguel Seabra é jornalista de ténis desde 1990 e comentador de ténis no Eurosport desde 2003. Foi editor das publicações Ténis Europeu, Jornal do Ténis e ProTénis. Foi campeão nacional universitário de ténis, treinador e árbitro internacional. É igualmente jornalista especializado em relojoaria mecânica, sendo editor da revista Espiral do Tempo. Assegura que não há nada melhor do que ter as suas paixões por profissão.