Esplendor na Relva | “O Dia do Senhor”, por Miguel Seabra

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Hoje joga-se excepcionalmente a um domingo em Wimbledon, com o Middle Sunday a ser promovido a People’s Sunday. Mas já todos esqueceram que antes nem sequer havia Final Sunday.

Miguel Seabra, em Wimbledon [clique aqui para ler todos os artigos publicados pelo autor no Ténis Portugal]

Somente pela quarta vez em 139 anos, joga-se no chamado ‘Middle Sunday’ – e, muito possivelmente, será a última vez que tal irá acontecer. É claro que os imponderáveis da meteorologia não oferecem garantias absolutas mas, com o avançar de uma semana no calendário para mais dentro do verão após a dilatação do período entre Roland Garros e Wimbledon a partir de 2015 e a estreia do tecto amovível do Court 1 em 2019, a lei das probabilidades torna essa perspetiva assaz inverosímil. Um futuro próximo com dois tectos e, talvez a médio prazo, um terceiro suplementar deverá bastar para que, com mais ou menos atrasos, cada edição do mais prestigiado torneio de ténis do mundo acabe dentro da quinzena regulamentar.

Ironicamente, o grande problema deste ano foi originado precisamente pela característica cabriolet do Centre Court – que ajudou a fomentar um desequilíbrio tal no quadro (com jogadores qualificados para os oitavos-de-final enquanto havia segundas rondas por concluir) que a organização foi forçada a criar uma jornada suplementar para que não houvesse jogadores a terem de fazer um esforço físico demasiado grande para se juntarem a outros já em fases mais adiantadas. Embora esse esforço de recuperação não tivesse impedido Novak Djokovic de ganhar a mais recente edição de Roland Garros. Entretanto, o sérvio já sabe que não irá revalidar o título de Wimbledon; se em Paris conseguiu aquilo que os rivais Roger Federer e Rafael Nadal nunca conseguiram (ganhar quatro títulos do Grand Slam consecutivos), em Londres não logrou fazer a dobradinha do Canal da Mancha que o suíço (em 2009) e o espanhol (em 2008 e 2010) conseguiram após quase três décadas de jejum (Bjorn Borg fora o último a rubricar o feito, em 1980). Talvez Nole tenha nova oportunidade para o ano.

Caído na emboscada do tie-break do quarto set diante de Sam Querrey e com algo que o terá diminuído (um colega sérvio falou-me num problema no ombro que pode explicar as estatísticas no serviço abaixo do normal; um colega alemão amigo de Boris Becker diz-me que é algo que não tem a ver com a parte física mas que não pode revelar), o número um mundial estará bem longe do All England Club neste Middle Sunday que promete reeditar o ambiente sensacional das três ocasiões anteriores em que se jogou. Com o nosso João Sousa a fazer parte do programa do dia, defrontando o checo-que-tem-um-pé-maior-do-que-o-outro Jiri Vesely no último embate do dia no Court 1.

Quando se jogou pela primeira vez num Middle Sunday, em 1991, todos os jogadores que actuaram nesse dia confessaram que foi um privilégio ímpar – mesmo enormes campeões habituados às maiores sensações, como Martina Navratilova. Nesse ano, Nuno Marques tinha encontro marcado com o norte-americano Jim Grabb para a primeira segunda-feira do torneio e o duelo só ficou decidido na sexta-feira. Também eu não me esquecerei do ambiente popular e efervescente vivido nos Middle Sundays, embora normalmente preze muito o dia de folga com uma tarde bem passada no centro de Londres para fugir à rotina por vezes opressiva do restrito circuito triangular entre a vila de Wimbledon (e a sua parte mais chique, Wimbledon Village), a localidade de Southfields e o All England Club onde se joga o torneio. Após a quebra da tradição em 1991, a decisão de se fazer jogar no domingo do meio voltou a ser tomada em 1997 (ano em que houve dois dias inteiros sem qualquer troca de bolas) e novamente em 2004… um ciclo de seis/sete anos de inclemência meteorológica que, a ser repetido, aconteceria outra vez lá para 2022 ou 2023, mas já então com o tecto suplementar do Court 1 a esconjurar a eventualidade de um novo Middle Sunday.

A grande diferença deste ano para as três ocasiões anteriores residiu precisamente no tecto. No tecto existente desde 2009 no Centre Court, que fez com que nesta primeira semana houvesse sempre encontros para os adeptos verem em casa na televisão e os jornalistas não enlouquecessem aqui no All England Club – é que nesses anos sem tecto e demasiada chuva foi mesmo necessário recorrer à imaginação (nalguns casos psicadélica) para reportar algo de interesse relacionado com o torneio…

Em cada uma dessas três ocasiões anteriores, o público respondeu em massa à criação de uma jornada de bilheteira completamente nova – com os ingressos a serem adquiridos por adeptos puros e duros que passaram a noite acampados e nas filas. O ‘povo’ pôde assim encher os dois palcos principais do All England Club, quando normalmente só consegue ter acesso a um reduzido número de bilhetes (mesmo que não se veja publicidade em Wimbledon, as grandes empresas associadas ao torneio açambarcam sempre uma grande quota dos ingressos). Esse primeiro domingo de actividade em 1991 ficou baptizado de People’s Sunday; houve filas de quatro quilómetros à volta do clube e bilhetes a preço simbólico para os primeiros a chegar (11.000 para o Centre Court e 5.000 para o velho Court 1 a 10 libras, passes de recinto a 5 libras); em 1997 sucedeu algo parecido, ‘bichas’ intermináveis e bilhetes para os dois palcos principais a 15 libras; já em 2004 foi diferente (e mais caro, com preços acima das 30 libras para os dois melhores courts), com ainda mais gente a poder aceder ao recinto após a renovação do All England Club ocorrida anos antes e os fãs a aclamarem ruidosamente Tim Henman no ecrã gigante virado para a colina de Aorangi Park, baptizada Henman Hill.

Este ano, não houve filas para o Middle Sunday. Toda a bilheteira especificamente criada para a jornada suplementar foi escoada através da internet e a organização poupou à vizinhança todo o caos dominical ocorrido nas três ocasiões anteriores. Porque o Middle Sunday é normalmente destinado a recuperar os delicados campos de relva e a proporcionar descanso a jogadores e à organização, mas também para dar tréguas à vizinhança deste bairro residencial de prestígio no sudoeste de Londres – embora nunca tenha percebido muito bem essa intenção: praticamente toda a gente que mora por aqui opta por alugar as respetivas casas por preços muito elevados a jogadores, acompanhantes, adeptos, empresas e jornalistas durante a quinzena!

Para o nosso João Sousa, será a possibilidade de competir numa rara jornada em Wimbledon e até beneficiar eventualmente do apoio de mais alguns portugueses que puderam comprar um ingresso que de outra maneira dificilmente conseguiriam adquirir. E, depois de ter actuado no Court 2 e no Centre Court nos dois anos anteriores, vai fazer o hat-trick na Catedral do Ténis ao pisar o Court 1 – e com boas probabilidades de passar pela primeira vez à segunda semana de um torneio do Grand Slam. Seria um domingo em grande, antes do segundo domingo dedicado à final masculina… e à final do Euro de futebol em que todos nós queremos ver Portugal.

Mas, até porque hoje se volta a jogar excepcionalmente no Middle Sunday, convém não esquecer aquilo que já toda a gente esqueceu: antes não havia sequer Final Sunday! Simplesmente não se jogava no dia do Senhor – a final feminina realizava-se à sexta-feira e a masculina no sábado; só a partir da edição de 1982 é que se decidiu aproveitar inteiramente o segundo fim-de-semana do torneio, com a final individual masculina agendada para o domingo.

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About Author

Miguel Seabra é jornalista de ténis desde 1990 e comentador de ténis no Eurosport desde 2003. Foi editor das publicações Ténis Europeu, Jornal do Ténis e ProTénis. Foi campeão nacional universitário de ténis, treinador e árbitro internacional. É igualmente jornalista especializado em relojoaria mecânica, sendo editor da revista Espiral do Tempo. Assegura que não há nada melhor do que ter as suas paixões por profissão.