Treino Mental – Entre os pontos também se joga

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Quando estamos a ver um encontro de ténis, o nosso foco é para o espectáculo que se pode ver durante os pontos. A incrível esquerda de Roger Federer, o grande serviço do John Isner, o jogo de pés de David Ferrer, as espectaculares trocas de bolas entre Serena Williams e Maria Sharapova ou até um passing shot por baixo das pernas de Novak Djokovic, são alguns dos exemplos daquilo que gostamos de ver no ténis.

E entre os pontos, como são os seus desempenhos? Será este aspecto importante? Haverá relação entre o desempenho entre os pontos e o desempenho durante os pontos? Como se pode treinar este aspecto? São algumas das perguntas que vou tentar responder durante este artigo.

O que acontece durante os pontos faz parte, apenas, de 20% a 30% daquilo que é um encontro de ténis, sendo que, os outros 70% a 80% são passados entre os pontos e jogos. Este é um dos muitos aspectos, que faz com que o ténis seja um dos desportos mais exigentes a nível mental, já que, todo esse tempo que não estamos a jogar o ponto, estamos a pensar e a sentir emoções, que têm muito impacto a nível mental e consequentemente a nível físico (pensamentos e sentimentos afectam também a bioquímica do nosso corpo e consequentemente as capacidades físicas) e técnico-táctico.

Durante um encontro de ténis estamos constantemente a lidar com o “stress competitivo” e o objectivo dos jogadores é que a mente e o corpo, tenham o melhor desempenho possível, independentemente de todos os factores internos ou externos, positivos ou negativos (“Força” Mental). Entre estes factores temos o equilíbrio emocional, concentração, tolerância à frustração/perseverança, autoconfiança, desempenho sobre pressão e ou adversidades, etc.

Todos nós sabemos que o trabalho dos aspectos referidos anteriormente não é fácil, e mesmo a nível profissional, vemos atletas que revelam lacunas em um ou mais componentes mentais e que essas lacunas acabam por prejudicar todo o seu jogo e por vezes ser decisivo no resultado do encontro.

Então como poderemos treinar/melhorar a nossa prestação entre os pontos e consequentemente aumentar a nossa força mental?

O reconhecido psicólogo desportivo Dr. Jim Loehr, que trabalhou directamente com a famosa academia do treinador Nick Bollettieri e consequentemente com nomes como Maria Sharapova, produziu um método que é seguido pela grande maioria dos treinadores de ténis denominada “16 SECOND CURE”. Este método é composto por 4 fases e pode ser usado desde o tenista amador até ao tenista profissional.

O “16 SECOND CURE”, além de ajudar o tenista a ser mais forte mentalmente, ajuda a pessoa a focar-se mais no momento presente, evitando assim as distracções negativas. Se estes segundos forem gastos da melhor maneira, o tenista vai ficar certamente melhor preparado física e mentalmente para o encontro!

1ª Fase – Resposta positiva
Imediatamente a seguir ao ponto terminar, quer se ganhe ou perca o ponto, tem de se ter uma resposta/postura positiva (ombros relaxados, cabeça levantada, imagem corporal positiva), agarrar a raquete com a mão não dominante (permite relaxar um pouco a mão dominante), virar as costas à rede e começar a andar para o fundo do court (deixar o passado para trás).

2ª Fase – Relaxamento
Mexer e olhar para as cordas, respirar fundo, ir à toalha, relaxar os braços e mãos, mostrar imagem forte e competitiva mesmo nesta fase de relaxamento.

3ª Fase – Concentração e estratégia para o próximo ponto
Nesta fase o atleta deve-se começar a posicionar para o próximo ponto, olhar para as cordas, olhar para o adversário com uma imagem corporal positiva, e pensar que estratégia vai implementar (ou tentar) no próximo ponto e dizer algumas palavras/frases de ânimo (“vamos lá”, “eu consigo”, etc).

4ª Fase – Preparação/Ritual
Já preparado na posição para o próximo ponto, o atleta deve iniciar a sua rotina/ritual que pode ser desde bater a bola 3 vezes, como bater a bola uma vez entre as pernas (John Isner antes de servir) ou até mexer nas orelhas e nariz (Rafael Nadal). Isto irá depender daquilo que o jogador se sentir mais confortável a fazer. Preparar mentalmente para ser bem-sucedido, visualização do próximo ponto ou gesto técnico/táctico.

As 4 fases descritas anteriormente podem ter ser executadas de uma forma diferente daquela que eu referi, apenas não podem alterar a ordem nem o pressuposto incutido em cada fase.

About Author

Diogo Narciso é acima de tudo um apaixonado pelo ténis e logo desde os seus 17 anos começou a dedicar-se àquilo que mais o motiva neste fantástico desporto: ser treinador. Tem como principais valências académicas e profissionais, a Licenciatura em Treino Desportivo com especialização em ténis, na ESDRM, Curso de Treinador Nível 1 da Federação Portuguesa de Ténis e de Treinador Nível 1,2,3,4 do Registo Profissional de Ténis. Apesar de ser um "estudioso compulsivo" de todos os assuntos relacionados directa ou indirectamente com o Ténis, acredita que tem sempre muito a aprender todos os dias. Como treinador, passou pela Associação 20km de Almeirim, Felner Academy e Duna Guincho, estando actualmente no Carcavelos Ténis.

1 comentário

  1. Pedro Coelho on

    Sem dúvida que o trabalho mental no ténis é fundamental, pois existem vários factores que influenciam directamente a capacidade de raciocínio o tomadas de decisão que, como todos sabemos, tem que ser tomadas em frações de segundo. Contudo há um ponto que está co-relacionado mas que na minha opinião são, em alguns aspectos distintos, e estou a falar das rotinas e rituais. Há quem considere serem praticamente a mesma coisa mas, na minha opinião, embora possam estar relacionados, em alguns pontos penso que divergem. Na questão da rotina, vejo-a como uma sequência de movimentos que habitualmente fazemos para executarmos uma tarefa, embora não sejam realmente necessários mas fazem com que a tarefa seja realizada de uma forma mais “confortável”. Obviamente não podemos retirar a rotina dos processos mentais e biomecânicos. Mas não é por tirar os boxers do rabo que o Nadal vai ganhar o ponto, mas é todo um conjunto de movimentos apreendidos desde há muitos anos que fazem com que execute “a tarefa” serviço mais confortavelmente quer a nível mental quer a nível biomecânico, pois ao retirarmos essas rotinas o mais provável seria o aparecimento de movimentos parasitas. Quanto aos rituais, podemos voltar a falar no exemplo Rafa Nadal, no facto da disposição e alinhamento das garrafas junto á cadeira, o peculiar aquecimento da Azarenka em que “mistura” movimentos típicos de activação muscular com dança. Neste ponto sim, considero que seja ritual, uma forma de libertar e limpar a mente de forma a conseguir potenciar a capacidade de concentração, conseguir abstrair-se do que se passa ao redor e conseguir focar a mente no objectivo principal. Ao potenciarmos a capacidade de concentração conseguimos aumentar também a capacidade de raciocínio o que faz que seja possível avaliar de forma mais clara as situações que nos são impostas e logo aumentar a capacidade de tomada de decisão e reacção ao estímulo provocado pelo adversário. Contudo, ligando estes dois itens rituais/rotina, conseguimos “aproveitar” melhor os 20 segundos entre cada ponto, para poder aumentar o nível de jogo no ponto seguinte e fazer face aos “problemas” colocados pelo adversário.

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