Táctica – Algumas considerações e sugestões

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Quero desde já agradecer ao Ténis Portugal pelo convite que me fizeram para ser cronista deste fantástico projecto. Neste primeiro artigo vou entrar numa temática um pouco mais “técnica”, que sinto ser uma lacuna que precisa de ser colmatada em Portugal, já que se partilhássemos mais conhecimento deste género todos tínhamos a ganhar, evoluindo e dando uma maior qualidade ao ténis em Portugal.

Hoje vou falar sobre táctica pelo facto de ser um aspecto essencial nas componentes de treino de um jogador, por perceber que é um aspecto que pode e deve ser trabalhado/melhorado desde o mini-ténis até aos jogadores com um bom nível nacional e até internacional, e por vezes é também, uma componente descurada pelos treinadores e respectivos jogadores.

A “dimensão táctica” pode ser descrita como a capacidade de optar pela melhor solução em determinado momento (tomada de decisão). No ténis a dimensão táctica é bastante complexa já que temos de tomar estas decisões centenas de vezes durante um jogo, em curtos espaços de tempo (por vezes menos de 1 seg.), e ainda, dependemos do adversário para decidir (posição no campo, tipo de jogador, pontos fracos, etc).

A decisão a tomar inclui ainda algumas variáveis como: que gesto técnico vou utilizar? Para onde vou jogar? Qual a velocidade? Que efeito usar? Além disso temos de perceber que a táctica é um processo cognitivo que é depois operacionalizado através da técnica, e por isso, não podemos dissociar estas duas componentes do treino.

Um dos problemas a corrigir a meu ver é o facto de a táctica ser pouco desenvolvida pelos treinadores durante os treinos, e por vezes para piorar, querem que os seus jogadores tomem as decisões certas quando não desenvolveram essa capacidade nos treinos. Falo não só por aquilo que vi e vejo nos torneios, conversas com treinadores, mas também porque já fui “vítima” desse problema logo nos primeiros anos como treinador. Deixo-vos alguns dos aspectos gerais que considero importantes na abordagem táctica pelos treinadores:

– Definir para si próprio a filosofia/princípios tácticos que defende como treinador ou alguns casos como equipa técnica. Isto porque se não estiverem bem definidos pelo próprio treinador e/ou equipa técnica vão criar inconsistência e confusão na tomada de decisão dos atletas;

– Ser exigente/rigoroso no que diz respeito á disciplina táctica.

Dou-vos um exemplo, num treino um dos atletas foi deslocado dois metros para trás da linha de fundo, o adversário está dentro do campo e mesmo assim ele decide fazer um amortie. O amortie foi espectacular/surreal e ganhou o ponto nessa bola. O que vocês fariam como treinadores? Em vez de exclamarem efusivamente algo do género: grande bola! Essa foi á Federer! A melhor opção, neste caso, mesmo que tenha sido uma jogada espectacular é levar o jogador a perceber que decidiu mal, e estatisticamente em 100 jogadas daquelas ganham 1. (jogo-percentagem).

– Usar o método da descoberta guiada na abordagem táctica principalmente nas etapas precoces de formação.

Para quem não conhece este conceito vou passar a dar um exemplo prático: um atleta está 2 metros atrás da linha de fundo e por isso deve optar por “defender”, jogando a bola cruzada, bem spinada, com uma boa margem da rede e profunda, isto porque assim a bola vai passar na parte mais baixa da rede (diminuindo a probabilidade da bola ficar no seu lado da rede), vai ter mais espaço para colocar a bola (o que acontece devido á geometria do campo) e ainda porque jogando cruzado a bola vai demorar mais tempo a chegar ao outro lado, dando-lhe mais tempo para recuperar da posição desfavorável, e com tudo isto “neutralizar” a vantagem que o adversário tinha no ponto.

Nesta situação como treinador, posso dar toda esta informação ao meu atleta directamente e ele aceitará (quase sempre sem duvidar), que esta é a melhor opção. A outra forma é utilizar a descoberta guiada questionando o atleta, levando-o a perceber qual a melhor solução e o porquê, fazendo perguntas como por exemplo: nesta situação deves jogar cruzado ou ao longo? Porquê ? Onde é que a rede é mais baixa? Tens de ganhar ou tirar tempo ao adversário? A bola demora mais tempo a lá chegar se for cruzada ou ao longo?

Se levarmos os atletas a perceber e a pensar nas situações, estamos a estimula-los em termos cognitivos e posteriormente vão tomar melhor decisões quando estiverem “sozinhos” no campo onde não têm o treinador a dizer o que fazer em cada situação.

About Author

Diogo Narciso é acima de tudo um apaixonado pelo ténis e logo desde os seus 17 anos começou a dedicar-se àquilo que mais o motiva neste fantástico desporto: ser treinador. Tem como principais valências académicas e profissionais, a Licenciatura em Treino Desportivo com especialização em ténis, na ESDRM, Curso de Treinador Nível 1 da Federação Portuguesa de Ténis e de Treinador Nível 1,2,3,4 do Registo Profissional de Ténis. Apesar de ser um "estudioso compulsivo" de todos os assuntos relacionados directa ou indirectamente com o Ténis, acredita que tem sempre muito a aprender todos os dias. Como treinador, passou pela Associação 20km de Almeirim, Felner Academy e Duna Guincho, estando actualmente no Carcavelos Ténis.

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