A Murray o que ele merece

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Por baixo da carapaça de Andy Murray está alguém que continua a ser mal compreendido pelos adeptos – e que é um rapaz com um coração generoso e de combatente que merece muitos mais elogios do que os que tem tido. O seu feito na Taça Davis de 2015 contribuirá para que melhore a percepção que muitos aficionados da modalidade têm dele. 

Miguel Seabra, em Gent

Há exactamente 20 anos, tive a felicidade de assistir ao vivo a uma dos maiores proezas jamais registadas na secular história da Taça Davis: no Estádio Olímpico de Moscovo e num lentíssimo court em pó-de-tijolo cuidadosamente preparado para o anular, Pete Sampras ganhou os três pontos que permitiram aos Estados Unidos derrotar a Rússia por 3-1. O feito acabou por ser empalidecido pelos 14 títulos do Grand Slam do campeoníssimo norte-americano, mas eu não me esqueci nem alguma vez esquecerei: após bater Andrei Chesnokov em cinco longos sets e crivado de cãibras que o impediram mesmo de cumprimentar convenientemente o seu opositor, entrou em colapso e teve de ser arrastado – e arrastado é mesmo o termo – para fora do court por dois elementos do staff da equipa, deixando na terra batida os sulcos das pontas das suas sapatilhas, como se fossem cicatrizes da guerra que tinha acabado de ganhar. Ressuscitou no dia seguinte quase de modo inverosímil para ganhar o encontro de pares ao lado de Todd Martin e no último dia resolveu a questão do troféu com um triunfo categórico sobre Yevgeny Kafelnikov.

Duas décadas volvidas, Andy Murray não precisou de ser tão heróico em Gent – mas o que ele fez foi carregar um reino às costas para dar à Grã-Bretanha a sua primeira ‘Saladeira’ desde 1936. Num court em terra batida montado na Flanders Expo para lhe diminuir a eficácia, o número um britânico venceu categoricamente os seus dois singulares sem a cedência de qualquer partida e pelo meio ainda ganhou o encontro de pares em quatro sets ao lado do seu irmão Jamie. Poder-se-ia dizer que o resultado final foi Murrays 3, Bélgica 1 – ou mesmo Dunblane (a cidade de onde são oriundos) 3, Bélgica 1 – mas não se pode deixar de relevar o resto do percurso de Andy ao serviço da equipa de Sua Majestade em 2015: ganhou 11 dos 12 pontos que a Grã-Bretanha conquistou e cada um dos 11 encontros que jogou, sendo que o outro foi crucialmente arrebatado por James Ward diante de John Isner no triunfo sobre os Estados Unidos.

Recentemente, o sempre polémico David Taylor (irmão do ex-campeão inglês John Lloyd e um empresário muito bem sucedido no lançamento de clubes de ténis) voltou a criar polémica ao referir que Andy Murray não dava “suficientemente de volta ao ténis britânico” aquilo que o ténis já lhe tinha dado na sua carreira; mais uma vez, as suas palavras foram mal interpretadas – o que eu acho que David Lloyd quis dizer foi que Andy Murray poderia era dar “ainda mais” ao ténis britânico do que aquilo que ele já deu. De certo modo, tem razão; o escocês poderia ser mais extrovertido e estabelecer um maior ou mais frequente contacto com os jovens para os motivar a seguirem uma carreira tenística que pudesse transformar a Grã-Bretanha num potentado da modalidade mais condizente com os pergaminhos históricos e os grandes torneios que tem. Mas é preciso aceitar-se que o temperamento de Andy Murray seja diferente do de Roger Federer, Rafael Nadal ou Novak Djokovic, que são melhores comunicadores e suscitam maiores paixões; e isso não quer dizer que essa faceta seja negativa: dou-lhe muito mérito pelo facto de continuar a ser um rapaz simples, que continua apaixonado pelo desporto em geral e pelo ténis em particular, que não gosta das luzes da ribalta, que dá mais valor ao essencial e à família do que ao social e aos eventos de patrocinadores.

Nuvem na cabeça

Essa maior reclusão e o facto de durante muito tempo ter andado com uma espécie de nuvem negra sob a sua cabeça ajudaram a criar uma percepção pública errada sobre a sua personalidade e devo dizer que, em parte, a culpa foi dele. Forjou a imagem de um jogador negativo, atormentado; muitas vezes foi-me mesmo difícil comentar encontros dele no Eurosport, tal era a sua propensão para sugar toda a adrenalina de um estádio para transformar os seus encontros em exercícios emocionalmente penosos. Mas, conhecendo-o eu um pouco melhor, conhecendo a sua mãe, sabendo o modo franco e honesto como nos olha nos olhos e presta atenção às perguntas que lhe fazemos nas conferências de imprensa para responder de modo inteligente e criterioso, sempre procurei dizer a espectadores e amigos que não, que ele não é de inventar cãibras ou de empregar atitudes anti-desportivas para incomodar os adversários – é a sua maneira de ser atormentada, tantas vezes auto-flagelante no passado e muito menos a partir do momento que passou a ser treinado por Ivan Lendl.

E a sua maneira de ser não tem de ser desculpada, mas compreendida. Trata-se de alguém que, aos 11 anos, precisou de se esconder debaixo de uma secretária para salvar a vida enquanto via muitos dos seus amigos serem mortos a tiro por um lunático que invadiu a sua escola em Dunblane. Esse trauma moldou para sempre o carácter de Andy Murray e as repercussões no seu comportamento em campo granjearam-lhe muita impopularidade e críticas frequentemente  injustas num planeta tenístico polarizado entre Federistas e Nadalianos. Novak Djokovic é outro que é mal interpretado por isso mesmo, por aficionados com preferências pré-estabelecidas.

Para os cépticos, cá estou para reafirmar que não, que Andy Murray não finge cãibras, e que sim, que ele deveria ter uma atitude mais positiva no court que só lhe traria mais dividendos em muitas frentes. E também sublinhar que, depois de se ter revelado o jogador do circuito masculino que mais respeita as suas colegas do circuito feminino e que ousou mesmo contratar uma mulher para treinadora (Amélie Mauresmo) contra tudo e contra todos, deu mais uma demonstração de grande carácter nesta final da Taça Davis: quatro segundos após ter caído para celebrar uma conquista para o seu país que não acontecia há 79 anos (1936 fora o último ano em que a Grã-Bretanha havia erguido a Saladeira), levantou-se no meio do molhe extasiado dos membros da sua equipa para ir cumprimentar David Goffin, o capitão Van Erck e cada elemento do staff da equipa belga, desde os suplentes ao massagista. Só depois voltou ao centro do court para celebrar tão histórica vitória junto dos seus. E enquanto o estádio se esvaziava ainda ficou mais de meia hora a cumprimentar, dar autógrafos e a posar para selfies com elementos anónimos da claque britânica que veio numerosa até Gent emprestar um colorido e uma sonoridade únicas à Flanders Expo.

Tudo bons rapazes

Nestas décadas de jornalismo de ténis conheci muitas prima-donnas, campeões esquivos e mesmo manhosos para com a imprensa. Sou um grande admirador do carácter de todos os elementos do chamado Big 4 (porque Stan Wawrinka é o primeiro a dizer que não tem regularidade suficiente para ser englobado num chamado Big 5); cada qual à sua maneira, Roger Federer, Rafael Nadal, Novak Djokovic e Andy Murray são todos eles excepcionais e exemplares.

Os primeiros três descolaram curricularmente e cada qual já apresenta um total de títulos do Grand Slam com dois dígitos, Andy Murray — que desde que apareceu no circuito teve sobre si uma pressão mediática da imprensa do seu país muito superior a qualquer dos outros três — mantém-se pelas duas unidades (US Open em 2012 e Wimbledon em 2013) e não logrou (ainda?) ascender à liderança do ranking mundial, mas já ganhou a medalha de ouro olímpica de singulares e agora juntou a Taça Davis ao seu palmarés. Está lá sempre, nas fases adiantadas dos principais torneios. E já tem tantos títulos Masters 1000 (11!) como Pete Sampras, o tal que fez há exactamente 20 anos em Moscovo aquilo que ele fez nestes últimos três dias em Gent. Ah, pois é…

About Author

Miguel Seabra é jornalista de ténis desde 1990 e comentador de ténis no Eurosport desde 2003. Foi editor das publicações Ténis Europeu, Jornal do Ténis e ProTénis. Foi campeão nacional universitário de ténis, treinador e árbitro internacional. É igualmente jornalista especializado em relojoaria mecânica, sendo editor da revista Espiral do Tempo. Assegura que não há nada melhor do que ter as suas paixões por profissão.

1 comentário

  1. SoccerNinja on

    Boa tarde. Gostei bastante do artigo. Queria deixar a minha opinião sobre a popularidade dos big 4. Faz apenas uns 3 anos que me tornei um espectador atento da modalidade, por isso não sei muito da história da polarização Federer v Nadal. Devo dizer que o Nadal é o meu jogador preferido, devido à raça, resiliência e inteligência que demonstra a jogar. Ou seja, é mais pelo que faz dentro do court. Porque gosto do estilo de jogo dele e me identifico com esse jogo. Por diferentes razões também gosto bastante do Federer e do Murray. Desconheço os problemas passados do Murray com a imprensa. Aliás, o Murray até ganhou um prémio por ser um desportista envolvido em causas como o cancro. Refira-se o caso do seu amigo Ross e o Rally for Bally.
    No final de um ano estrondoso (2015), dei por mim a pensar como é possível um jogador magnífico como o Novak não ter o mesmo número de adeptos que o Nadal ou Federer. Se for pela sociabilidade, ele até é mais extrovertido e divertido que os outros dois. Não cheguei a grandes conclusões.
    Cumprimentos.
    PS: Também gosto muito do Fognini. Têm um enorme talento. É pena que não tenha cabeça.

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