Fim-de-semana de sonho

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Dia 1 de novembro já foi feriado nacional. Este ano, acordou cinzento e agreste em quase todo o país. Se as condições climatéricas foram de má memória para os portugueses, o fim-de-semana revelou-se risonho e feliz para os amantes do ténis. Numa conjugação de diferentes eventos, às vitorias nos escalões juvenis na Gran Canaria (Espanha) TE – U12, Sansenxo (Espanha) TE – U16, Raquette D’Or (Marrocos) ITF – U18, juntaram-se as de Frederico Silva (ITF10.000 – Egipto), Gastão Elias (Challenger – Peru) e João Sousa (Valência – ATP250). Não esquecer que Mariana Alves arbitrou a final do Master feminino. Que mais poderíamos pedir?

Dar os parabéns aos diferentes intervenientes, exultar com estes feitos dos nossos atletas é obrigatório e não podemos deixar de realçar e enaltecer os feitos. Nunca será demais elogiar, destacar e vibrar com os mesmos. Mas aceite o convite para escrever sobre este momento histórico, penso ter a obrigação de ir um pouco mais além e de reflectir sobre o que se passou.

Será somente momentâneo ou virão aí outros dias risonhos e felizes como este? É fruto de um esforço nacional, devidamente organizado e estruturado ou de vontades pessoais e avulso? Estamos perante um momento de viragem do ténis nacional, passando a partir desta data a existirem condições para repetirmos e quiçá ir mais longe nos resultados atingidos… ou será como uma estrela cadente — é um momento bonito que dura pouco e se apaga?

O que aconteceu é histórico e incrivelmente bom. Os nossos atletas ganharam em todas as frentes e Mariana Alves representou a nossa arbitragem (não foi a 1.ª nem será a ultima) ao mais alto nível. PARABÉNS A TODOS! E estes elogios são extensivos aos seus treinadores, estruturas técnicas e famílias. Estas últimas linhas são importantes: é que o que a se assistiu é fruto disso mesmo. Um esforço de atletas, onde as estruturas técnicas e famílias, desempenham um papel preponderante. Infelizmente, no nosso país ainda não conseguimos estruturar um plano de trabalho a longo prazo, onde com mais ou menos sucesso, se vá trabalhando com consistência.

Com facilidade detectamos aos nossos jovens, as aptidões que os podem levar a sonhar com os títulos. Somos iguais ou tão bons como os outros países. Assim, começa um trabalho nos clubes com um treinador e o apoio dos pais. E está montada a estrutura que vai fazer com que o jovem progrida. E para que a progressão exista têm que começar a competir com os outros jovens nacionais e internacionais. É neste momento que tudo se transforma: se já é complicado aguentar alguns orçamentos de treinos, o orçamento que se exige para competir é um salto abismal. Competir além fronteiras torna-se impossível para muitos. E o quadro competitivo nacional é pouco exigente para quem quer no futuro guerrear com quem discute os títulos dos grandes torneios. E este handicap tem sido um obstáculo de difícil transposição.

Após a alegria de ver vários jovens/atletas ganharem torneios lá fora, veio uma incerteza: o tónico que este momento histórico trouxe,será aproveitado? Quem viu, leu ou soube destes resultados terá ficado a sonhar. Se é treinador, pai ou atleta, estes são os resultados que nos fazem sonhar e acreditar que é possível. Mas para o aproveitar teremos de ser realistas e perceber que o que aconteceu é um mero acaso. Com tristeza o digo. É um mero acaso, porque não estamos estruturados nem temos capacidade para o fazer. Infelizmente, o país tem mais em que se preocupar do que investir no desporto. E os mecenas ou investidores não abundam e quando aparecem, querem os resultados no imediato, não deixando que o tempo nos dê maturidade e crescimento sustentado no trabalho.

Resta-nos então voltar a elogiar. A todos os envolvidos nesse dia memorável, pais, jogadores e atletas, muito obrigado pela alegria. PARABÉNS! Desejo que os mais velhos continuem a conquistar para motivar os mais novos a perseguirem o sonho e que os mais novos sejam capazes de “aguentar” a subida íngreme e dura que o Frederico Silva, Gastão Elias e João Sousa ainda continuam a escalar, agora mais perto do topo e do “sabor doce” do sucesso e da recompensa.

Termino com um desejo pessoal: que alguém olhe para a nossa modalidade (como outras em Portugal), que tanto tem lutado, quase sempre às custas do esforço individual, e nos ajude a montar uma estrutura, seja estatal ou privada, que nos permita deixar de ser um sonho para ser uma realidade.

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Head-coach no São João Ténis Clube; Comentador convidado Eurosport em torneios do Grand Slam;

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