Wimbledon, Dia 9: Hino ao ténis define meias-finais de luxo

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A programação era de luxo e as expectativas de um nível muito elevado. No final da jornada, a nona de ténis na relva sagrada do All England Club, ficaram a ser conhecidos os quatro finalistas do quadro principal de singulares masculinos. Hoje, mesmo com chuva, completaram-se todos os jogos e ainda esteve perto de ser quebrada uma ‘maldição’, mas o final de tarde londrina deu várias voltas e a norma das últimas décadas acabou por prevalecer.

Um herói e uma lenda, caminhos cruzados

Um tem estatuto de herói, o outro de lenda. Na próxima sexta-feira, voltam a ter os caminhos cruzados e desta vez numa meia-final do Major britânico, que ao contrário da época de 2012 não poderá contar com Roger Federer e Andy Murray em cada um dos lados do campo na grande final.

116. Foi este o número de jogos ganhos de forma consecutiva por Roger Federer no seu serviço até ser quebrado por Gilles Simon na tarde desta quarta-feira. Jogava-se o segundo set do primeiro embate no Court No. 1 já depois de uma interrupção devido à chuva quando o tenista suíço se desconcentrou e permitiu que tal acontecesse pela primeira vez no torneio (e logo em branco).

Não mais passou do que de um susto e se na ronda anterior o número um mundial — por sete vezes campeão em Wimbledon — deu uma masterclass frente a Roberto-Bautista Agut, o encontro de hoje frente ao número dois francês não foi muito diferente. Autoritário no serviço, na resposta e nas pancadas quer de fundo do campo quer na rede, Federer não se deixou surpreender pelo gaulês (que não o vence desde 2008) e caminhou com relativa facilidade (6-3 7-5 6-2) para mais umas meias-finais no All England Club, fase da prova onde, aliás, nunca perdeu.

Se a exibição de Federer foi bonita, também a de Andy Murray convenceu. Em pleno Centre Court, sob o olhar atento de muitos entendidos e celebridades (a título de exemplo, o casal real formado por William e Kate Middleton e ainda David Beckham, com o seu filho), o tenista da casa colocou um ponto final nas aspirações de Vasek Pospil ao vencer pelos parciais de 6-4 7-5 6-4 depois de 2h11′.

A disputar os primeiros quartos-de-final da carreira em torneios do Grand Slam (a sua melhor prestação ocorrera na Austrália, onde nas duas últimas épocas atingiu a terceira ronda) Pospisil não teve armas para combater Andy Murray nos momentos mais importantes do encontro, que apesar de equilibrado se concluiu apenas em três partidas, permitindo assim ao campeão de 2013 avançar para as meias-finais, onde terá pela frente o bem conhecido Federer, contra quem perdeu a final de 2012.

Vitória histórica confirma ‘maldição’ no All England Club

Depois de um duelo entre Federer e Simon, o Court No. 1 do clube britânico recebia uma nova batalha franco-helvética, fazendo lembrar um verdadeiro dia de Taça Davis. E foi aí que se ‘tocou’ um verdadeiro hino ao ténis para concluir a jornada desta quarta-feira.

Primeiro é preciso mencionar o regresso de Novak Djokovic às vitórias tranquilas, com o tenista sérvio a apresentar um ténis significativamente superior ao da ronda anterior (em que precisou de cinco partidas para derrotar o sul-africano Kevin Anderson) para deixar pelo caminho Marin Cilic, vencedor da última edição do US Open, em apenas três partidas, pelos parciais de 6-4 6-4 6-4 num encontro sem história e marcado pelo bom nível de jogo apresentado pelos dois jogadores mas, sobretudo, pela capacidade que o número um mundial teve de elevar a sua resposta ao serviço nos momentos decisivos de cada parcial.

Voltemos, então, ao ponto alto do dia. Agendado como o último encontro do Court No. 1, o jogo entre Stanislas Wawrinka e Richard Gasquet era uma verdadeira incógnita. Detentores de duas das mais belas e eficientes esquerdas a uma mão do circuito (se não mesmo as melhores…), os dois queriam fazer história nas respetivas carreiras e tanto podiam desenhar um grande embate como deixar que o jogo se decidisse num curto espaço de tempo. Felizmente para o espetáculo, foi a primeira opção a levar a melhor e só apenas ao cabo de 3h28 se chegou a um vencedor: o francês, que pela terceira vez na carreira (Wimbledon 2007 e US Open 2013) e com os parciais de 6-4 4-6 3-6 6-4 11-9 conseguiu garantir o apuramento para as meias-finais num Major.

Falar de parciais num encontro como o que foi protagonizado é quase injusto para os dois artistas e, por isso mesmo, vamos ao duelo. De um lado estava Stan The Man, o campeão da última edição de Roland Garros, e do outro Richard Gasquet, O Mosqueteiro, que ganhou um novo alento desde que nesta mesma temporada conquistou a primeira edição do Millennium Estoril Open. Com técnicas diferentes mas igualmente atrativas, Stan e Richie começaram desde cedo a fazer pelo espectáculo e foi com as suas elegantes esquerdas a uma mão que construíram alguns dos pontos mais bonitos do torneio. Foi também com elas que criaram as maiores dificuldades nos adversários e sonharam com a vitória, que até poderia ter sorrido ao francês mais cedo não tivesse o helvético, número quatro mundial, recuperado o break a 4-5, quando estava entre a espada e a parede.

O que significa a vitória de Gasquet? Um óbvio apuramento para as meias-finais, claro, mas mais do que isso. Significa que ainda não será desta que se interrompe a série prolongada já desde 1995, quando pela última vez na história de Wimbledon os quatro primeiros cabeças de série disputaram as meias-finais. Roger Federer, o segundo favorito, foi o primeiro a vencer hoje, seguido de Murray, o terceiro, e de Djokovic, o primeiro. Tudo apontava para que Wawrinka, o quarto, pudesse quebrar a malapata quando ameaçou a vitória no quarto parcial, mas Gasquet negou-lhe o triunfo. Foi um verdadeiro hino ao ténis e assim estão definidas as meias-finais de luxo da 129ª edição do torneio.

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Gaspar Ribeiro Lança

[email protected] | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tiebreak. Dar palavras a recordes, a histórias. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. Mais, sempre mais. Foi com o objectivo de fazer chegar este capítulo do desporto a mais adeptos que fundei o Ténis Portugal em 2010. Cinco anos depois, fui convidado a ser co-responsável pela redação dos conteúdos do website, newsletter e redes sociais do Millennium Estoril Open.