Roland Garros, Dia 11: Dizer não há regra deu resultado(s)

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‘Não. Hoje, venço eu.’

Dizer não há regra deu frutos e que o digam Novak Djokovic e Andy Murray, dois bons amigos de infância que hoje, em instantes e palcos diferentes, venceram duas das suas bestas negras para se apurarem para as meias-finais de singulares de Roland Garros. Estamos mais perto do dia da grande final e o suspense aumenta.

Número um mundial, (indiscutível) melhor jogador do ano e numa série de vinte e seis vitórias em busca do seu primeiro título na cidade da luz. Novak Djokovic. Rei da terra batida, na sombra do seu esplendor e em busca de La Décima. Rafael Nadal. Court Philippe Chatrier, 3 de junho de 2015. Jogou-se o aguardado, discutiu-se o embate dos quartos-de-final mais aguardado dos últimos tempos e, no final, caiu o campeão em título: 7-5 6-3 6-1 para o sérvio, que ao fim de sete encontros conseguiu finalmente vencer o espanhol na terra batida do Major francês.

O duelo da tarde desta quarta-feira era muito aguardado, sim, e as expectativas eram elevadas, mas desde os primeiros jogos ficou no ar a sensação que pouco mais seria do que um duelo praticamente de sentido único. E a verdade é que, depois da recuperação com quatro jogos consecutivos no primeiro parcial, Rafa Nadal não mais conseguiu fazer. Apresentou-se sem as suas armas habituais, sem a capacidade de luta que lhe é característica e a garra espanhola. Pouco depois, num piscar de olhos, já perdia por dois sets a zero, algo até então inédito na sua carreira em Roland Garros.

Se os primeiros sets foram história, o terceiro e último parcial escreve-se numa linha. Sentido único para Novak Djokovic, hoje irrepreensível e sem precisar de apresentar o seu melhor ténis para ultrapassar um rei adormecido. Hoje, a vitória foi do menos experiente dos candidatos. Sem surpresas de maior mas, ao mesmo tempo, desiludindo ao não corresponder às (talvez demasiadas) expectativas criadas em torno do encontro.

‘Também há espaço para mim!’

Enquanto Novak Djokovic erguia os braços e celebrava mais um triunfo (o 21º em 44º encontros) sobre Rafael Nadal, Andy Murray continuava a construir uma liderança não surpreendente mas inédita sobre o espanhol David Ferrer, que havia ganho os cinco embates anteriores entre ambos sobre o pó de tijolo.

Sem qualquer derrota na presente temporada na superfície, Murray, o grande favorito, soube deslizar melhor sobre o terreno de eleição do adversário e só não venceu em parciais diretos porque o instinto de guerreiro de Ferrer surgiu a tempo de adiar aquilo que se via como inevitável. E assim, com os parciais de 7-6(4) 6-2 5-7 6-1, o britânico repetia as meias-finais de 2014 e colocava de fora da competição mais um espanhol.

Este ano, e pela primeira vez desde 2004 (David Nalbandian, Gaston Gaudio, Guillermo Coria e Tim Henman), Roland Garros não conta com qualquer tenista espanhol apurado para as meias-finais de singulares masculinos.

Realizar de um sonho v. Perseguição às duas dezenas

De um lado Serena Williams, do outro Timea Bacsinszky. As meias-finais femininas (que se discutem amanhã) ficaram hoje completas e na primeira metade do quadro teremos um duelo de contrastes. A experiência contra o nervosismo de estreia, uma campeã afirmada contra uma das revelações da época. Se há uma favorita? Sim, claro, mas no ténis nunca é de mais lembrar que um ponto pode ser suficiente para mudar (ou dar rumo a) um encontro. E por isso mesmo os dados estão lançados.

No único duelo entre jogadoras que sabem o que é jogar uma final em Paris (Serena Williams venceu mesmo o torneio em 2002 e 2013, enquanto Sara Errani perdeu a final de 2012 para Maria Sharapova), a norte-americana, número um mundial, teve finalmente reunidas as condições para alinhar uma exibição tranquila, longe de percalços e passível a quaisquer testes e correções para os últimos dias do torneio. Sem surpresas, venceu por 6-1 6-3 com 39 winners apontados, mais 30 que os protagonizados pela jogadora transalpina.

Se para Serena o apuramento para as meias-finais de Roland Garros não surge como algo de novo, há no entanto uma variável que lhe dá uma motivação extra para continuar a lutar pela glória: a vencer, conquistará o seu vigésimo título do Grand Slam; mas Timea Bacsinszky não tem menos motivos para sorrir e regressar ao court já amanhã para lutar pela final mais importante da sua carreira.

E acontecer em Roland Garros torna tudo ainda mais especial. Quer saber porquê? Há dois anos, mais precisamente em maio de 2013, a jogadora suíça (agora com vinte e cinco primaveras cumpridas) estava fora do circuito mundial. Não anunciou o final da sua carreira, não deu conferências de imprensa; simplesmente deixou o circuito e aceitou empregos em restaurantese bares. Até que, no tal mês de maio, recebeu um e-mail da organização do torneio. Em causa estava o apuramento para a fase de qualificação. Sem treino, ausente das linhas e com a raquete substituída por outra atividade profissional, decidiu voltar a arriscar. Conduziu para Paris, perdeu na primeira ronda e, ainda assim, renasceu para o ténis.

Com a paixão reencontrada, começou a competir novamente até que, em 2015 e cinco anos depois, voltou a disputar finais no circuito profissional. Perdeu em Shenzhen, para Simona Halep, mas venceu em Acapulco e Monterrey, sempre sobre Caroline Garcia. Agora, está nas meias-finais de Roland Garros, dado que hoje venceu a também estreante Alison Van Uytvanck — a partir de segunda-feira a número um belga — por 6-4 7-5.

Não é bonito, o ténis?

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Gaspar Ribeiro Lança

[email protected] | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tiebreak. Dar palavras a recordes, a histórias. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. Mais, sempre mais. Foi com o objectivo de fazer chegar este capítulo do desporto a mais adeptos que fundei o Ténis Portugal em 2010. Cinco anos depois, fui convidado a ser co-responsável pela redação dos conteúdos do website, newsletter e redes sociais do Millennium Estoril Open.