Ricardo Cayolla escreve sobre Andy Murray

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Escrevo esta crónica centrada sobre Andy Murray, o tenista que é escocês quando perde e da Grã-Bretanha quando ganha. Murray nunca será número um mundial. Ou muda ainda mais na sua essência ou ser número um mundial é algo impossível.

Que fique bem claro: Murray é um trabalhador incansável, um jogador excepcional, que fará parte da galeria dos grandes campeões. Mas o que ganhou – e mais importante do que isso, a sua postura, não é suficiente para aspirar verdadeiramente a ser número um mundial (não como Rios, Kafelnikov, Moya ou Rafter), reconhecido por todos como o foram Sampras, Muster, Lendl, Agassi, Connors, Nastase, Becker, Federer, Nadal e Wilander.

A edição do Australian Open de 2015, no que diz respeito ao quadro masculino, foi fraca. O exemplo das meias finais, em que ambas foram de um nível suficiente (Murray-Berdych) a sofrível (DjokovicWawrinka) é bem elucidativo.

A final disputada no Australian Open é bem clara. Escrevo esta crónica, após ter feito os comentários em direto, sem ter lido nada sobre o jogo, nem qualquer declaração dos jogadores. Revi o jogo mas não ouvi nem vi nada mais. Escrevo, assim, de acordo com aquilo que penso e sem ser influenciado por nada nem ninguém.

Ninguém que aspire a número um mundial, com legítimas pretensões, pode amuar numa final de um torneio do Grand Slam. O exemplo de Ivan Lendl, quando numa final do US Open no 5-5 do terceiro set contra o norte–americano Jimmy Connors fez duplas faltas e consequentemente perdeu por 5-7, é claro como a água: amuou e depois ‘levou’ 0-6.

Ninguém que queira ser o alvo a abater do ranking mundial pode ter uma namorada que se torna no centro das atenções com uma t-shirt que, independentemente do genial golpe de publicidade (não de marketing!, são coisas diferentes) é de um péssimo gosto. Numa final nada o pode distrair. Nada. Ponto final. O exemplo de Berasategui, que antes da final de Roland Garros em 1994 com Sergi Bruguera estava numa das entradas principais do estádio, à espera de familiares para lhes entregar os convites é sintomático. Foi aniquilado.

Ninguém que queira ser o líder da classificação do ATP (Associação dos Tenistas Profissionais) pode encabeçar uma cruzada a favor das feministas no desporto. Billie Jean King deixou de ser número um mundial quando se pôs a inventar os encontros das guerras dos sexos e as polémicas sobre os diferentes valores pagos aos jogadores e jogadoras do então circuito profissional.

Para se aspirar verdadeiramente a número um mundial é preciso viver para isso. Apenas e só. Comer, dormir, treinar, respirar, sonhar, rezar, enfim, fazer tudo e mais alguma coisa só para chegar a essa posição e, depois de conseguir, fazê-lo ainda de forma mais intensa, concentrada, fanática. Para perceber isso basta ouvir uma das frases de Mats Wilander no resumo pós final sobre a importância do ténis na vida de Djokovic. Infelizmente, ou não, mesmo a nível mundial, poucos percebemos isso.

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About Author

Ricardo Cayolla foi jogador profissional de ténis. Atualmente é responsável pela Cayolla academia de ténis. É comentador convidado de ténis no Eurosport e autor de cinco livros de ténis. Doutorado em Marketing e Estratégia, é Professor na Universidade de Aveiro.