Michelle volta a brilhar e a escrever história

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Por onde começar? Bem, Michelle Larcher de Brito derrotou Maria Sharapova – ex-número um mundial e detentora de quatro títulos do Grand Slam, um dos quais conquistado precisamente em Wimbledon – em sets directos, por 6-3 6-4, naquele que é já o maior triunfo de sempre da história de português.
Não me interpretem mal, mas não é fácil ser desportista em Portugal. Entre faltas de apoios e condições mais do que suficientes à prática das mais diversas modalidades e à pouca projecção de que muitas delas sofrem, nem sempre é possível não sair do país. Michelle Larcher de Brito tomou rapidamente a decisão de viajar para os Estados Unidos da América, onde aos nove anos já treinava na Academia de Nick Bollettieri. Com a vitória escalão de sub16 do Eddie Herr Championship, tornou-se na atleta mais nova de sempre a vencer a prova, tendo-se ainda tornado, dois anos depois, na segunda jogadora mais nova da história a vencer o Orange Bowl.
Poucos meses depois, já no circuito profissional, Larcher de Brito derrotava jogadoras de renome mundial, de entre as quais se destacam Agnieszka Radwanska, Ekaterina Makarova e Gisela Dulko, tendo ainda estado perto de vencer Serena Williams em julho de 2008. As comparações começavam a ser feitas e a Michelle já não era uma jovem do circuito júnior, mas sim uma grande promessa do ténis mundial.
É inevitável falar das críticas feitas, não só a esta mas a muitas outras jogadoras e jogadores que representaram ou representam as cores de Portugal. Nem todos os dias foram fáceis e, como foi divulgado pela própria esta semana (num artigo publicado pelo New York Times após a sua vitória frente a Melanie Oudin), o afastamento dos courts esteve mais próximo do que muitos pensavam.
A temporada de 2009 foi a de verdadeira afirmação de Michelle Larcher de Brito no circuito profissional, tendo ultrapassado toda a fase de qualificação para chegar à terceira ronda do quadro principal de Roland Garros (o seu melhor resultado até à data), a que se seguiu o apuramento para a segunda ronda de Wimbledon e do US Open. Os anos seguintes foram ‘menos positivos’ e, apesar de algumas vitórias e de ter disputado cinco finais no circuito ITF entre 2011 e 2012 (venceu três desses encontros), a portuguesa estava afastada dos grandes palcos.
Vinte e seis de junho de dois mil e treze ficará para sempre na história como o dia em que Michelle Larcher de Brito caminhou para o Court N.2 do All England Lawn Tennis and Croquet Club juntamente com Maria Sharapova. Até aqui, muitas haviam sido as comparações, muitos haviam sido os artigos escritos e muitas haviam sido as previsões feitas. ‘E se…’ era uma constante em Portugal. Mas hoje tudo terminou. Se dúvidas ainda existissem para os mais distraídos, ou para aqueles que não queriam ver com olhos de ver, Larcher de Brito entrou, jogou e venceu a número três mundial, ex-número um e que, há precisamente nove anos, se ajoelhou no Centre Court ao vencer o seu primeiro major.
A exibição foi exemplar, digna de ficar registada para sempre no ténis português e em qualquer suporte físico/material que o permita. Os parciais de 6-3 6-4, ao cabo de apenas noventa e quatro minutos, e o forte ruído que acompanhou a celebração da tenista portuguesa falam por si. Toda a exibição fala por si neste dia em que Michelle voltou ao topo do ténis, em que Michelle (re)convenceu o mundo e se (re)apresentou às dezenas de jornalistas que marcaram presença na sala de conferências de imprensa, às centenas de adeptos que se deslocaram para a saída do Court após a sua vitória. Tudo por mais uns segundos a observar e interagir com a jogadora portuguesa. e está de regresso ao top100. Hoje, e mais uma vez, é dia dos portugueses se sentirem orgulhosos de Michelle Larcher de Brito.

ARTIGO ESCRITO POR GASPAR LANÇA PARA REGISTO PESSOAL A 25.06.2013 E PUBLICADO PELA PRIMEIRA VEZ NO TÉNIS PORTUGAL A 11.08.2013 (TENDO A DATA SIDO POSTERIORMENTE ALTERADA PARA A DA SUA ESCRITA).

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Gaspar Ribeiro Lança

[email protected] | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tiebreak. Dar palavras a recordes, a histórias. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. Mais, sempre mais. Foi com o objectivo de fazer chegar este capítulo do desporto a mais adeptos que fundei o Ténis Portugal em 2010. Cinco anos depois, fui convidado a ser co-responsável pela redação dos conteúdos do website, newsletter e redes sociais do Millennium Estoril Open.